🖼️ A Moldura Que Foi Resgatada do Esquecimento

 



🖼️ A Moldura Que Foi Resgatada do Esquecimento

Era uma moldura modesta. Madeira clara, sem dourados nem vidros brilhantes. Estava encostada a um contentor, no lado sombrio da rua, suja, com uma lasca no canto e uma mancha de tinta seca no rebordo.

Chorava baixinho, convencida de que a sua vida tinha acabado.
— “Já fui parte de uma parede bonita. Tive fotos de crianças, flores, paisagens… Mas agora… sou só lixo.”

Os sacos ao lado nem respondiam.
Mas um par de olhos viu-a.

A primeira vez, passou apressada. Uma senhora — cabelo preso, saco de compras, pensamentos longe.
A moldura espreitou.
— “Ela olhou para mim...? Talvez…”

A segunda vez, no dia seguinte, a mesma mulher. Passou devagar. Os olhos cruzaram-se de novo.
A moldura fez força para parecer menos partida, mais direita.
— “Será que me leva…?”

Na terceira vez, os olhos voltaram.
E desta vez, pararam.

A senhora ajoelhou-se. Passou o dedo sobre o canto lascado, olhou para o interior vazio e disse, baixinho:
— “Tu tens histórias por contar ainda. Não estás acabada. Só foste esquecida.”

E levou-a.

Em casa, limpou-a com um pano quente e palavras doces.
Pintou-lhe a borda de novo, colou uma pequena flor seca no canto, e encostou-a à parede do atelier onde viviam velas, sabões e sonhos.

A moldura suspirou.
Não tinha foto lá dentro — ainda.
Mas sabia que, naquela casa, ia guardar não uma imagem…
… mas a memória das coisas salvas.

E todas as noites, os wax melts piscavam para ela:
— “Ei, sobrevivente… tu também fazes parte do clube.”

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